Designação Igreja de Paço de Sousa / Igreja do Salvador
A construção do Mosteiro de Paço de Sousa, teve início, de acordo com os registos da época citados do Boletim nº 17 da Direcção Geral dos Monumentos Nacionais de Setembro de 1939, no ano 998, e foi utilizado pela ordem dos Beneditinos. Da construção original não há qualquer registo e em 1088 a igreja foi substituída por um templo maior, consagrado em 29 de Setembro pelo arcebispo de Braga D. Pedro.
Localização Portugal, Porto, Penafiel, Paço de Sousa
Cronologia 956 - Fundação da igreja por D. Trutesendo Galindes, filho de Galindus Gonzalvis, tal como constava da inscrição pintada no tímpano, removida aquando dos restauros da DGEMN
994 - documento mencionando a fundação e o respectivo fundador do mosteiro
séc. 12 - reconstrução e ampliação da igreja
1146 - data da morte de Egas Moniz
séc. 13 - reconstrução e ampliação da igreja
1605 - demolição da Capela do Corporal
séc. 17 - construção do claustro e fonte
1690 - data do cruzeiro
séc. 18 - ampliação do edifício conventual
1706 - contrato com o ourives Manuel do Couto e Sousa para a execução de uma cruz de prata, igual à do Mosteiro dos Religiosos de São João
1741 - remodelação da capela-mor
1784 - reconstrução da capela-mor
1927 - violento incêndio danifica sobretudo o mosteiro
1944 - é transferido para a igreja um altar proveniente da Igreja de Arnoso.
Materiais Estrutura em granito, cobertura de madeira telhada; cobertura dos absidíolos em abóbada de pedra; pavimento em lajes graníticas; portas e altares de madeira; cenotáfio de granito; madeira no tecto da sacristia e da Sala do Capítulo, janelas e portas; gradeamentos em ferro; placas de cimento; talha nos retábulos; pinturas murais.
Uma das principais figuras da região, Egas Moniz, descendente de uma das primeiras e mais influentes famílias da Nobreza da primeira monarquia portuguesa, os Ribadouro, está sepultado no Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa. No seu túmulo é possível admirar as gravações escultóricas da sua viagem a Toledo, na qual ofereceu a sua vida e a da sua família pela falta de cumprimento de palavra do rei D. Afonso Henriques.
Nesta representação do túmulo podemos observar duas senhoras em saudação, e outras duas junto ao corpo físico do aio de D. Afonso Henriques, enquanto a alma do defundo sai pela boca amparada por dois anjos.Repare-se que estes seguram um círculo por onde a alma entra.
As siglas poveiras são uma forma de "proto-escrita primitiva", já que se trata de um sistema de comunicação visual rudimentar; devem-se a colonos Vikings que passaram o seu sistema de escrita para a população poveira há cerca de mil anos atrás. As siglas eram usadas como brasão ou assinatura familiar para assinalar os seus pertences - também existiram na Escandinávia, onde eram chamados de bomärken, e de onde esta tradição provém. No passado, era também usado para recordar coisas como casamentos, viagens ou dívidas. Devido a isso eram conhecidas como a "escrita" poveira, sendo bastante usada porque muitos dos habitantes desconheciam o alfabeto latino, e assim as runas adquiriram bastante utilidade. Os vendedores usavam-nas no seu livro de conta fiada, sendo lidas e reconhecidas por estes tal como nós reconhecemos um nome escrito em caracteres latino. As siglas-base consistiam num número bastante restrito de símbolos dos quais derivavam a maioria das marcas familiares; estes símbolos incluíam o arpão, o coice, a colhorda, a lanchinha, o sarilho, o pique (incluindo a grade que era composta de piques cruzados). Muitos destes símbolos são bastante semelhantes aos que são encontrados no Norte da Europa e geralmente possuiam uma conotação mágico-religiosa de protecção quando pintados nos barcos. Siglas antigas podem ainda ser encontradas na actual Igreja Matriz (Matriz desde 1757) e na Igreja da Lapa (na Póvoa de Varzim), na Capela de Santa Cruz (em Balasar), em vários locais religiosos do Noroeste Peninsular e são ainda usados de forma cada vez mais ligeira por algumas famílias de pescadores. A mesa da sacristia da antiga Igreja da Misericórdia, que serviu de Matriz até 1757, guardava em si milhares de siglas que serviriam para um estudo mais aprofundado, mas foi destruída quando a igreja foi demolida. Os poveiros escreviam a sua sigla na mesa da Igreja Matriz quando se casavam, como forma a registar o evento. As siglas eram passadas do pai para o filho mais novo, já que na tradição poveira que ainda perdura, o herdeiro da família é o filho mais novo tal como na antiga Bretanha e Dinamarca; aos outros filhos eram dadas a mesma sigla mas com traços, chamados de «pique». Assim, o filho mais velho tem um pique, o segundo dois, e por ai em diante, até ao filho mais novo que não teria nenhum pique, herdando assim o mesmo símbolo que o seu pai. O filho mais novo é o herdeiro da família, pois era esperado que tomasse conta dos seus pais quando estes se tornassem idosos. Também, e ao contrário do resto do país, é a mulher que governa e dirige a família - este matriarcado radica no facto de o homem estar normalmente a pescar no mar, sendo muito provavelmente uma reminiscência de costumes matrilocais muito antigos.
Cronologia 1071 / 1072 - Data da inscrição funerária existente no sarcófago com alusão a Galindus, provavelmente Galindus Gonzalvis, pai de Soeiro Galindes, Senhor de Riba-Cávado, casado com D. Goína Pais, bisneta do Conde D. Paio Vermudes, presor da Terra da Vinha (BARROCA, 2000); José Mattoso aponta para outro provável Galindus Gonzalvis, casado com Vistregia, pai de Patrina e de Trutesendo Galindes, este último fundador do Mosteiro de Paço de Sousa (v. PT011311220003); séc. 11, final - Provável data da inscrição, possivelmente pertencente a um monumento funerário de Sesnando (BARROCA, 2000); séc. 12 - segundo José António Almeida existia no local um convento dos Eremitas de Santo Agostinho, que terá pertencido aos Templários, tendo passado posteriormente depois para a Comenda da Ordem de Cristo (ALMEIDA, 1976); segundo Pinho Leal o mosteiro pertencia à Ordem de São Bento (PINHO LEAL, 1873); séc. 13, meados - provável reedificação da igreja (ALMEIDA, 1978); séc. 14 - construção da capela funerária adossada a S. da capela-mor; séc. 15 - a igreja passa a ser abadia secular; posteriormente passa a reitoria; séc. 16, primeira metade - execução das pinturas murais; séc. 18 - construção do tecto de caixotões da capela-mor; 1717, 2 Setembro - na Visitação é referido que "o fabriqueiro não tem dado satisfação às obras mandadas fazer na visita passada, com é telhar a Capela Maior da Igreja, consertar a vidraça..."; 1718, 18 Agosto - segundo a Visitação foram colocadas as redes nas frestas, faltando tapar a porta lateral do exonártex; 1720, 2 Dezembro - segundo a Visitação ainda não foi colocada a vidraça nem as telhas na capela-mor; 1723, 26 Novembro - segundo refere a Visitação " Acho o corpo da igreja tão escuro e falto de luz que se não escusa abrir-se nela uma fresta de bom tamanho, que tenha cinco palmos de alto e quatro de largo com sua grade de ferro, vidraça e rede de arame (...) os fregueses mandarão abrir da parte da pia baptismal, na forma que determino em termo de três meses sob pena de 3000 réis (...) também a porta travessa da parte da dita pia está muito baixa e incapaz para ela sair o palio, cruzes e mais paramentos das procissões, pelo que mando os fregueses ou a levantem ou façam uma de novo mais abaixo da que está"; a questão da porta teria de ser resolvida no prazo de 4 meses, sob pena de 4000 réis pagos pelo juiz da igreja; 1724, 25 Outubro - a Visitação menciona que nenhuma das obras ordenadas foi executada; 1725, 27 Novembro - a Visitação refere que devido à dificuldade em se abrir uma janela no local onde estava a pia baptismal, pois a parede era bastante grossa, que a pia se mude para o exonártex, do lado esquerdo do portal, rodeada por grades altas; 1726, 1 Novembro - a Visitação refere que a pia baptismal já foi mudada, mas que as grades poderão ser dispensadas por não haver espaço; 1729, 2 Agosto - segundo a Visitação, os fregueses deverão arranjar o forro da igreja, junto ao arco e telhar o cabido da porta travessa, do lado da Epístola; 1730, 26 Junho - a Visitação menciona que as obras ordenadas não foram feitas; as casas da Residência e recolhimento de frutos ameaçavam ruína, pelo que seria um prejuízo para o Comendador da Igreja, o Conde da Ericeira; 1731, 16 Setembro - Visitação dando conta que as casas da Residência ainda estavam arruinadas; determina-se que se rasgue uma fresta na capela-mor, ao pé do arco triunfal; 1733, 7 Dezembro - a visitação dá conta que as obras da casa da Residência ainda não foram feitas; a despesa pertencia ao Comendador; 1739 - a Visitação determina que se limpe a pia baptismal, assim como o sacrário, retábulos, imagens, paredes, forros; segundo o visitador, o padre terá de limpar a igreja pelo menos quatro vezes por ano; 1743, 10 Novembro - a Visitação menciona que a igreja se encontra muito abaixo do nível do adro, que para lá entrar tem de se descer três degraus; existem muitas inundações devido a sua situação rebaixada; é também demasiado escura; o visitador ordena que se encha de terra o pavimento interior da igreja, de modo a ficar nivelado com a capela-mor; que se disponham as campas como estavam; que se levantem os retábulos colaterais; parte da porta travessa do lado da Epístola terá de ser entaipada; por cima da porta lateral da nave, do lado da Epístola terá de ser aberta uma fresta; os guarda-pós dos retábulos deverão ser arranjados; 1744, 10 Novembro - o visitador revoga a ordem de enchimento do pavimento interior de terra, devido à intenção dos moradores mudarem a igreja para junto do Calvário; o visitador ordena ainda que se doure o frontal do retábulo-mor; 1746, 20 Novembro - devido à falta de dinheiro para as obras o visitador determina que o padre no termo do mês dê parte da Mesa da Consciência para a obra do douramento do frontal do retábulo-mor; no prazo de dois meses será feito o cruzeiro fronteiro à igreja; 1760, 29 Fevereiro - o visitador determina que se arranje os caibros do forro por cima do coro, assim como todo o telhado, usando a telha e cal que for necessária; 1780 - segundo o Abade de Tagilde a igreja recebeu uma visitação neste ano, sendo reconhecida a necessidade de reformar a igreja e se fizesse importantes obras; os fregueses forma com embargos à Relação primaz, que confirmou o mandato do visitador; subiu recurso à Coroa, que ordenou que o visitador procedesse com justiça; 1784 - perante o visitador foi resolvido fazer uma nova igreja junto do Calvário, no entanto esta obra nunca chegou a ser feita; séc. 19 - provável reforma da igreja, nomeadamente construção de novos retábulos e sanefa do arco triunfal; 1941, Fevereiro - um ciclone causa diversos estragos na igreja; 1942, Junho - início das grandes obras de restauro do edifício, levadas a cabo pela DGEMN *1; 1957 - a igreja é reaberta ao culto, apesar de as obras não estarem totalmente concluídas; 1981 - carta do páraco de Serzedelo, Padre Manuel Dias da Silva Salgado, ao Ministro das Obras Públicas, dando conta da necessidade da construção de uma nova igreja paroquial, na proximidade da antiga; 1990, 7 Novembro - carta do páraco José António Fernandes Antunes ao presidente do IPPC dando conta que o adro estava em estado de abandono, pois as obras nunca haviam sido concluídas, e que a rampa que foi construída permitia a entrada de águas pluviais no interior da igreja; 1993 - a igreja já não apresentava culto.
Enquadramento Rural, isolado, implantado no centro de amplo terreiro trapezoidal, pontuado por algumas árvores. O terreiro é delimitado a S. por casas de habitação, e a N. pela EN. No extremo O. encontra-se o cemitério da freguesia. A igreja encontra-se rodeada por adro murado, em quota inferior ao terreiro, desenvolvido em patamares devido ao declive do terreno, com acesso a O., fronteiro à fachada principal, a S., por escadaria, junto à sacristia, e a E, também por escadaria, junto à fachada posterior. Apresenta pavimento em laje de granito, frontalmente e lateralmente, a lateral S. com estreito corredor junto à parede, e o restante em terra batida. Junto à fachada lateral N. encontram-se quatro sarcófagos, dois deles ainda com tampas, apresentando uma delas uma inscrição.
Descrição Planta longitudinal composta por exonártex fechado e nave única rectangulares, capela-mor quadrangular, com sacristia, também quadrangular, adossada lateralmente a S. e muro campanário disposto lateralmente em relação à fachada principal, também a S.. Volumes escalonados de dominante horizontal, com nave mais alta do que os restantes volumes. Coberturas diferenciadas em telhados de duas águas. Fachadas em alvenaria de granito, com embasamento, na fachada lateral S., no corpo da nave, escalonado. Remates das fachadas de topo em empena coroadas por cruzes páteas no exonártex e nave e cruz florenciada na capela-mor, e das laterais por cornija suportada por cachorrada lisa. Fachada principal orientada, com pano do exonártex aberto por portal, com consolas suportando tímpano, inscrito em duas arquivoltas ligeiramente quebrados, com impostas destacadas. A primeira arquivolta é enquadrada exteriormente por friso em dente de serra e dois sulcos simples que a percorrem inferiormente. Em ambas as arquivoltas existem alguns silhares com siglas. A encimar o portal encontra-se fresta inscrita em arco pleno enquadrado por dois sulcos, à semelhança da arquivolta do portal. Pano da nave, com fresta, parcialmente oculta, enquadrada por arquivolta plena. Fachada lateral N., com pano do exonártex e da nave percorrido por cachorros que suportariam alpendre, no da nave encimados por pingadouro. Neste pano rasga-se portal com consolas suportando tímpano decorado por cruz pátea vazada, enquadrado por arquivolta ligeiramente quebrada. Junto ao portal, do lado esquerdo encontra-se silhar com inscrição. Pano da capela-mor rasgado por fresta, ladeada por dois cachorros, colocados a diferentes alturas. Fachada lateral S. igualmente percorrida por cachorros, na nave e na sacristia, encimados por pingadouro. Pano do exonártex com portal, semelhante ao da fachada oposta, apenas com a diferença que a cruz pátea do tímpano não é vazada. É ladeado superiormente, do lado esquerdo, por fresta. Pano da nave, com contraforte abaixo do pindadouro, e a cima sequência de três frestras. No estremo direito outro portal, com consolas suportando tímpano, vazado com cruz pátea, enquadrado por arquivolta plena. Pano da sacristia perpendicular ao da nave rasgado por portal em arco quebrado, enquadrado superiormente por arquivolta, também quebrada, e entre os cachorros dois escudos. Acima do pingadouro rasga-se fresta. Fachada posterior com panos da nave e capela-mor rasgados por fresta e pano da sacristia com janela em arco quebrado, mainelada, com impostas destacadas, e pequeno óculo quadrilobado na enjunta. Muro campanário em alvenaria de granito, com sineira no topo, ao centro, em empena, com duas ventanas em arco pleno e acesso por escada de ferro. INTERIOR com paredes em alvenaria de granito. Exonártex com cobertura em masseira de madeira com o travejamento à vista. Pavimento em taburnos de madeira e guias de granito. Do lado do Evangelho encontra-se baptistério sobre plataforma de granito, com pia baptismal de taça e coluna octogonal. Na parede rasgam-se dois arcossólios, ligeiramente quebrados, enquadrados por arquivolta. Parede do lado da Epístola com portal de comunicação com o exterior, enquadrado por arco pleno, com siglas nos seguintes do fecho, assente em imposta destacada. Parede testeira com portal de acesso à nave, com consolas suportando tímpano vazado por cruz pátea. É enquadrado por três arquivolta, a exterior decorada por friso de lanças. Nave com cobertura e pavimento igual ao do exonártex. Parede do lado da Epístola com púlpito de base granítica, rectangular, assente em modilhão, e guarda vazada em balaustrada de madeira. Acesso por escada de madeira. Em ambas as paredes rasgam-se portais de acesso ao exterior, ladeados por pia de água benta gomada. Arco triunfal pleno assente em colunas fuste com vestígios de pintura mural de arabescos e capites fitomórficos. Nesta parede encontram-se vestígios de pintura mural, superiormente com arabescos, e a ladear o arco triunfal, prolongando-se para as paredes laterais da nave, com representação de vários santos, delimitados por painéis. Nestes painéis, do lado do Evangelho, encontra-se a representação "O martírio de São Sebastião", e um anjo, e do lado da Epístola "A coroação da Virgem" e Santo António. Ainda neste último lado, mas na parede lateral da nave, encontra-se um painel com São Brás. Capela-mor com cobertura em tecto de masseira de, decorado por caixotões de talha dourada com pintura de medalhões fitomórficos. Pavimento em laje de granito. Parede testeira com altar recto de granito com sacrário de talha, sobre supedâneo de dois degraus. A encimar o altar rasga-se fresta inscrita em arco pleno. A parede apresenta vestígios de pintura mural, com painéis figurativos, um deles representando "O milagre de São Martinho", com o santo representado a cavalo, com chapéu emplumado, espada na mão e oferecendo o seu manto a um mendigo. Apresenta igualmente decoração com motivos de arabescos, prolongando-se para a parede lateral, do lado da Epístola. Nesta última abre-se porta de verga recta, emoldurada, de acesso à sacristia, ladeada por nicho, encimada por fresta entaipada, inscrita em arco pleno. Sacristia com cobertura de madeira com travejamento à vista assente em cachorrada com sulcos marcados, do lado do Evangelho. Parede testeira com vestígios de pintura mural, bastante esbatidos, prolongando-se para a lateral esquerda. Parede fundeira com lavabo, com reservatório parcialmente oculto por espaldar rectangular com torneira e taça oval.
Tipologia Arquitectura religiosa, românica, gótica, quinhentista e barroca. Igreja monacal de estrutura românica, composta por exonártex fechado, nave única, capela-mor, primitiva capela funerária gótica, usada posteriormente como sacristia, adossada lateralmente à capela-mor e muro campanário junto à fachada principal. O exonártex, possivelmente de construção mais tardia, com algumas semelhanças ao da Igreja de São Miguel de Vilarinho (v. PT011314320008), em Santo Tirso, apresenta a fachada principal com os mesmos formulários construtivos e decorativos de uma fachada principal de uma igreja românica, construído mais baixo do que a nave, de modo a se diferenciar desta. Os portais deste espaço apresentam arquivoltas ligeiramente quebradas seguindo uma solução de transição para o gótico. Os portais da nave, tanto o axial como os laterais, apresentam arquivoltas plenas, o primeiro mais profundo. Os portais do exonártex, assim como os da nave, apresentam consolas a suportar o tímpano, sendo o axial da nave e os laterais, decorados com cruzes páteas. Antes dos restauros iniciados nos anos 40, apenas o lateral do exonártex apresentava esta morfologia, que se manteve, os restantes não tinham consolas nem tímpanos, sendo estes feitos à semelhança do primeiro. Os portais axiais apresentam decoração a enquadrar as arquivoltas, no exonártex, friso em dente de serra e na nave, motivo de lanças. Os portais, bastante simples, apresentam semelhanças na linguagem decorativa com os da Igreja de São Miguel do Castelo (v. PT010308340006), em Guimarães. A iluminação é feita através de frestas que se rasgam acima dos portais axiais, em arquivolta plena, nas fachadas laterais, acima do arco triunfal e no topo da cabeceira. Os topos das fachadas são em empena, no exonártex e na nave coroadas por cruzes páteas e na capela-mor por cruz florenciada. Fachadas laterais com remates em cachorrada simples, percorridas por cachorros que suportariam alpendre, no panos do exonártex e nave, sendo nestes últimos percorridos por pingadouros. Panos do corpo gótico com acesso principal em arco quebrado, encimado por cachorros, também para alpendre, e entre estes escudos. Na fachada posterior rasga-se janela em arco quebrado mainelada. Interior com coberturas em madeira, na capela-mor em masseira decorada por caixotões de talha barrocos. Pavimentos em taburnos no exonártex e nave e em laje de granito na capela-mor e sacristia. Exonártex com parede lateral rasgada por arcossólios, também ligeiramente quebrados. Arco triunfal pleno, assente em capitéis fitomórficos, bastante alto, possivelmente de uma fase mais tardia do românico. Pinturas murais quinhentistas, com decoração de arabescos e representação de Santos.
A Ponte da Ucanha constitui o mais bem conservado exemplo de uma ponte fortificada no nosso país. Construída sobre o rio Varosa, esta ponte evidencia-se sobretudo devido à imponente torre que se situa sobre uma dassuas extremidades. Por isso, o monumento também é conhecido como Torre da Ucanha. A ponte é arqueada e composta por um arco grande e quatro pequenos, estando actualmente interdito o tráfego de veículos, excepto os de duas rodas. O acesso do lado sul é feito através de um túnel, que passa sob a torre.A necessidade de defesa estava,relacionada com a proximidade do mosteiro cisterciense de Santa Maria de Salzedas, de cujo couto a vila de Ucanha era cabeça. A sua existência já vem documentada no século XII. D. Afonso Henriques doou,no ano de1163, à viúva de Egas Moniz, Teresa Afonso, o couto de Algeriz, acrescentando-lhe o território de Ucanha. A ponte deve ter sido construída pelos romanos, no seguimento de uma estrada que passava ali perto. Teresa Afonso, fundadora do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, doou ao convento o couto que recebera do rei e foram os monges quem mais beneficiou da velha ponte, convertida em apreciável fonte de rendimento pelos direitos de portagem que seriam cobrados. Em 1324, D. Dinis pretendeu favorecer as gentes e vila de Castro Rei, concedendo-lhes o privilégio da passagem de Moimenta para Lamego, mas face à pressão dos frades de Salzedas, o rei confirmou tal privilégio a Ucanha.
Descrição Planta longitudinal, composta, regular. Volumes articulados com coberturas diferenciadas de telhados de 2 águas e não coincidência do exterior com o interior. Embasamento proeminente conferindo-lhe grande horizontalidade. Capela de 3 naves e capela-mor. Fachada do lado esquerdo com embasamento muito demarcado. Fachada principal delimitada por pilastras, com escadaria de 8 degraus rectangulares com rebordo no remate dos patins que dão acesso à porta, de perfil rectangular e ladeada por fenestração rectangular gradeada, encimada por 3 brasões de armas. Remate em cornija e pequena sineira sobre a porta. 2 registos epigráficos completam o muro da capela. O corpo da capela-mor, em plano mais recuado e de menores dimensões e altura, comporta pequena fenestração igual ao do corpo da capela. Fachada da capela-mor cega, embasamento e cornija. Lateralmente os muros, igualmente cegos, fecham o corpo da capela. Fachada do lado direito: Junto a muro, porta com arquitrave, a que se tem acesso por escadaria de 4 degraus semelhante à do alçado fronteiro, mas de menores dimensões. Pilastras e cornija. O alçado fronteiro ao altar-mor é cego por invasão de muro e construção que se prolonga até ao cunhal da capela. INTERIOR: 2 fiadas de 3 arcos de cada lado, a pleno centro, assentes em colunas cilíndricas atarracadas, com capitéis de decoração fitomórfica. Arco triunfal de arco em ferradura, assente em colunas adossadas ao pano murário divisor da capela com a capela-mor, lembrando iconóstase. Altar-mor de talha. Tectos de madeira, policromada, de caixotões.
Cronologia Séc. 6 - Balsemão já era paróquia; séc. 13 - nas Inquirições, surge referida como local bem povoado; 1562 - construção de um altar em honra de Santa Maria, cabeça do vínculo da Quinta da Régua, criado pelo bispo D. Afonso; 1981, 14 Setembro - o imóvel é afecto ao IPPAR, por auto de cessão.
Tipologia Arquitectura religiosa visigótica, maneirista. Planta de gramática basilical. Semelhanças com iconóstase. Decoração com motivos visigóticos: cordões circulares nas impostas, losangos gregos, espinhas, dentes de serra, impostas terminadas por modilhões enrolados. Afinidades decorativas com a Ermida do Paiva, Tarouquela e Sernancelhe.
Bibliografia VASCONCELLOS, Joaquim de, Arte Românica em Portugal, Porto, 1918; CORREIA, Vergílio, Artistas de Lamego - Subsídios para a História da Arte Portuguesa, Coimbra, 1923; PESSANHA, José, São Pedro de Balsemão e São Pedro de Lourosa, Coimbra, 1927; COSTA, M. Gonçalves da, História do Bispado e Cidade de Lamego, Lamego, 1977; Guia de Portugal, Vol. V - II, Lisboa, 1988
Nossa Senhora de Guadalupe na Raposeira é uma pequena ermida que se ergue num vale aberto, entre duas breves colinas, a pouca distância da Raposeira/Vila do Bispo, a norte da estrada que liga estas duas povoações a Lagos. O acesso faz-se por um curto troço de estrada secundária, que termina no largo fronteiro à porta principal do templo. De pequenas proporções exteriores, com aspecto sóbrio, onde o contraste da pedra, de cor característica, - no portal e degraus, no óculo, nos cunhais e contrafortes -, é realçado pela brancura da cal das paredes. Essa mesma pedra encontra-se espalhada nos terrenos circundantes.
O corpo do templo é formado por três tramos, marcados por dois largos arcos diafragma, que morrem a cerca de meia altura da parede e cujos ângulos chegam quase à cobertura de madeira. Têm rebordos, como que nervuras largas e grossas, que assentam sobre os capitéis lisos de uma espécie de mísulas. Estes capitéis alargam-se junto à parede, dando assento, igualmente, à pequeníssima espessura saliente dos arranques dos arcos, os quais, no exterior do templo, são sustentados por grossos contrafortes escalonados, perceptíveis na parede interior, a partir do nível inferior dos capitéis.
Sobre o interior visível do contraforte do primeiro arco, do lado sul, encontra-se uma pia de água benta, circular, que se estreita ligeiramente na parte inferior. Esse estreitamento está sublinhado por uma finíssima aresta saliente, sobre a qual uma linha quebrada, igualmente fina e suave, circunda a pia.
No segundo tramo, ao lado da pia, abre-se uma porta para o exterior. Interiormente apresenta-se de verga abaulada e, exteriormente, de arco quebrado, com o ângulo pouco acentuado e de aresta chanfrada. Sem capitéis, continua-se pelos pés direitos, também chanfrados, interrompendo-se à altura de uma pequena imposta que, a poente contém um elemento decorativo, mais uma vez cordiforme.
Localização Portugal, Lisboa, Cascais, São Domingos de Rana
Acesso Encontra-se no vale entre Outeiro e Polima. WGS84 (graus decimais) lat.: 38,721070; long.: -9,323232
Descrição É constituída por uma "villa", com a "domus, da qual foram encontrados alguns pavimentos, o ângulo nordeste do perístilo (pátio coberto assente sobre colunas, em redor de um jardim) ainda com uma base de coluna de mármore "in situ" e o capitel caído ao lado, e um trecho do que se supõe ser o "impluvium" (abertura quadrada no meio do átrio na qual era recebida a água das chuvas). Do complexo termal, descobriu-se um tanque. A solidez do amontoado de pedras detectado sugere provável contraforte a sustentar a parede do tanque, tratando-se, possívelmente, de uma "natatio" que serviria simultaneamente o complexo termal, a N., e as várias necessidades da "villa fructuária". Na área agrícola envolvente, descobriram-se estruturas rurais como o celeiro e o lagar. O celeiro, de grandes dimensões e construção extremamente cuidada, tem contrafortes distribuídos pelos corredores dos alicerces. Estruturas a N. e E. indiciam pátio murado que aproveitou para o chão a laje natural. Encontrado também um Quadrante Solar que terá sido expressamente desenhada para o local, um forno de cozer pão eum altar em honra de Triborunis ( divindade indígena )
Época Construção Séc. 02
Arquitecto | Construtor | Autor Não definido
Cronologia Séc. 02 - época provável da sua construção; 1973 - Guilherme Cardoso e Prof. José d'Encarnação iniciam escavações; 1985, 21 Agosto a 4 de Setembro - os mesmos arqueólogos, concluem tratar-se de uma "villa" romana
Tipologia Arquitectura agrícola, romana. "Villa" ou residência de campo de um senhor de grandes posses, como podemos depreender pelos vestígios da "domus", pela grande área agrícola que a circundava e pelas próprias estruturas rurais, sobretudo do celeiro, tudo indiciando, portanto, uma ampla actividade produtiva. Integra ainda um complexo termal.
Características Particulares Monumentalidade e beleza do celeiro, de que se conhece apenas mais um na Península Ibérica, na "villa" romana de Monroy, perto de Cárceres
Intervenção Realizada 1985 - Escavações põem a descoberto a domus, celeiro e termas; 1987, 13/31 Julho - escavações arqueológicas financiadas pelo IPPC, com apoio logístico da Câmara Municipal e com o trabalho de desenho do campo patrocinado pela Junta de Turismo; os trabalhos incidiram especialmente na zona da "villa fructuária".
Observações Vergílio Correia foi o primeiro a referir vestígios romanos na zona, quando encontrou uma sepultura romana junto às pedreiras. A descoberta de inúmeros fragmentos de cerâmica campaniforme da "villa" documentam a ocupação do lugar desde tempos pré-históricos, mas a "villa" propriamente dita foi ocupada desde o séc. 2 ao IV d.C. Do interessante espólio destacamos: parte inferior (intacta) de um moinho; carranca representando um cão de dentes arreganhados; quadrante solar; ara a triborunnis; grande quantidade de agulhas e alfinetes de osso; sovelas de ferro; agulha de bronze e molde de cerâmica com a decoração de um leão. A zona S. da villa apresenta grande potencialidade, visto que as camadas estatigráficas atingem os 2 m. e vários níveis arqueológicos.
Bibliografia N/A, Outeiro de Polima - Sondagens arqueológicas no Casal de Freiria, Jornal da Costa do Sol, Cascais, 29 Agosto 1985, p. 15; N/A, Ruínas Arqueológicas em Casal Freiria, Boletim da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana, 30 Agosto 1985, p. 1 - 2; N/A, Surpreendentes descobertas em Freiria, Jornal da Costa do Sol, 14 Agosto 1986, p. 1 e 6; CARDOSO, Guilherme, Cascais no tempo dos romanos (Exposição), Cascais, 1986; ANTUNES, Cristina, Visita à Villa Romana de Freiria, Jornal da Costa do Sol, Ano XXIV, nº 1059, 18 Agosto 1988, p. 8; CABRAL, João Pedro, Nota sobre o topónimo Freiria in Arquivo de Cascais, nº 7, s.l., 1988, p. 45 - 55; CARDOSO, Guilherme, ENCARNAÇÃO, José d', Villa Romana de Freiria in Informação Arqueológica, nº 9, Lisboa, 1994, p. 60 - 61.
A Estação Arqueológica de Mesas do Castelinho situa-se na freguesia de Santa Clara-a-Nova, no lugar de Monte Novo do Castelinho. Segundo estudos arqueológicos, confirma-se que Monte Novo do Castelinho foi um grande povoado já com características defensivas, com vestígios de povoamento desde a Idade do Ferro, remontando a sua origem ao século IV ou V a.C. Vestígios de povoamento de vários povos têm sido encontrados nas escavações que continuam a decorrer nesta estação, sendo que os mais abundantes são de origem romana e os mais recentes de origem árabe. As diversas campanhas arqueológicas realizadas colocaram a descoberto várias fortificações, construídas entre a Idade do Ferro e o período omíada. O acesso à Estação Arqueológica é feito por estrada de terra batida desde Santa Clara-a-Nova.
Desconhece-se a origem do nome Tróia. Na época romana, Tróia era uma ilha do delta do Sado, denominada de Ilha de Acála (conforme o refere Avieno). As primeiras referências às ruínas romanas de Tróia remontam a 1516 quando Gaspar Barreiros refere as “…salgadeiras em que se curava o peixe…”.
Em 1622, João Baptista Lavanha, refere o local “…onde ainda se vêm os vestígios de tanques em que se salgaram os atuns, e outros pescados, aparecem ruínas de outros edifícios de aquela cidade e delas se tiraram estátuas, colunas e muitas inscripções….” Ainda no terceiro quartel do século XVIII, tiveram lugar as primeiras escavações arqueológicas por iniciativa de futura rainha D. Maria I. Nessa ocasião foram postas a descoberto as casas da chamada Rua da Princesa.
Em 1850 a Sociedade Arqueológica Lusitana promoveu novas escavações arqueológicas que incidiram na zona residencial da Rua da Princesa.
No início do século XIX, Inácio Marques da Costa, conduziu trabalhos arqueológicos que levaram à descoberta de estruturas fabris e, sobretudo, de carácter religioso, como o batistério, de que não restam vestígios. Este arqueólogo deixou-nos pormenorizadas descrições e desenhos de todo o conjunto.
O complexo industrial de Tróia terá começado a funcionar ainda na época da dinastia dos Júlios-Cláudios e o seu abandono ocorreu cerca do século VI d.C., quando o fim do império levou ao declínio das rotas comerciais e dos mercados consumidores.
A evolução da ocupação de Tróia está ligada à própria história política do Império Romano. Acesso: Via Setúbal, por barco, ou por Est. via Alcácer, Grândola ou Santiago do Cacém.
Protecção:
MN, Dec. 16-06-1910, DG 136 de 23 Junho 1910, ZEP, DG 155 de 02 Julho 1968.
Enquadramento:
Rural, borda d'água. Na parte N. da península de Tróia do lado do estuário, na margem esquerda do Rio Sado, numa restinga delimitando pelo E. um pequeno esteiro em forma de fenda, a Lagoa.
Descrição:
As ruínas do agregado populacional compreendem uma área habitacional, um balneário, 4 zonas de enterramento, um núcleo religioso, além de vários núcleos industriais. Ruínas de edifícios de habitação, de r/c. e r/c. e 1º andar, formando quarteirões separados por ruelas, algumas luxuosas com mosaicos em "opus vermiculatum", estuques com pintura a fresco; balneário - com vestíbulo, "frigidarium", "tepidarium" e "caldarium" sobre "hipocaustum", piscinas e sala de ginástica; vestígios de mosaicos em "opus vermiculatum" numa das piscinas; necrópoles de tipologia diversa: sepulturas sobrepostas numa altura de 7 m (margem da Caldeira), sepultura de incineração de Galla, mausoléu de planta quadrada com nichos abertos nas paredes, para guardar urnas cinerárias, sepulturas de superestrutura quadrangular (junto à basílica); basílica paleo-cristã - com 2 partes distintas: a nave (22,5 x 13 m.), com vestígios de 8 bases de colunas e de arranques de arcadas transversais, a ábside, a O., com pavimento mais elevado, paredes estucadas e pintadas a fresco, com marmoreados, elementos geométricos e emblemáticos; cetárias - grande número de tanques de salga rectangulares e quadrangulares, contíguos, forrados em "opus signinum" e sem comunicação, com poços de boca circular nas proximidades, para fornecer àgua para a salmoura.
Utilização Inicial:
Residencial, industrial
Época de Construção:
Séc. 1 / 6
Cronologia:
Séc. 1 - início da ocupação, que se prolongou até inícios do séc. 6, por povo luso-romano cuja principal actividade era a pesca, o fabrico e a exportação de conservas de peixe. A submersão de parte da povoação terá sido motivada por um fenómeno de transgressão marinha (fenómeno inicial de afundamento seguido de levantamento já com sedimentos), associado a vagas sísmicas e à acção erosiva do Sado (SILVA, 1966).
Tipologia:
Romano, paleo-cristão. Aglomerado construído em função da actividade conserveira, com inúmeros vestígios de cetárias, além do equipamento urbano característico dos povoados luso-romanos: habitações, termas, necrópole, columbário, basílica de 4 naves, com frescos de inspiração paleo-cristã, que se aproximam de outros em igrejas asturianas (ALMEIDA, 1971).
Características Particulares:
O columbário (sepultura familiar) é um exemplar raro em território português. Junto à basílica existia uma construção circular, a N. da actual capela, provavelmente um baptistério, entretanto desaparecido, descrito por Marques da Costa (1933), que ainda viu um "crismon" pintado nas paredes da basílica, por ele interpretada apenas como uma capela sepulcral.
Bibliografia:
APOLLINARIO, Maximiano, Estudos sobre Tróia de Setúbal, in O Arqueólogo Português, vol. 3, Lisboa, 1897; COSTA, A. Marques da, Estudos sobre algumas estações da época luso-romana nos arredores de Setúbal, in O Arqueólogo Português, vol. 26, Lisboa, 1924, vol. 27, Lisboa, 1929; vol. 29, Lisboa, 1933; SILVA, Carlos Tavares da, CABRITA, Mateus Gonçalves, O problema da destruição da povoação romana de Tróia de Setúbal, in Revista de Guimarães, vol. 76, Guimarães, 1966; ALMEIDA, Fernando de, MATOS, José Luís de, Frescos da Capela Visigótica de Tróia, Setúbal", in Actas do 2º Congresso Nacional de Arqueologia, vol. 2, Coimbra, 1971; ALARCÃO, Jorge, Portugal romano, Lisboa, 1974; SOARES, Joaquina, Estação romana de Tróia, Grândola, 1980; ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Arte paleo-cristã da época das invasões, in História da Arte, vol. 2, Lisboa, 1986.
Intervenção Realizada:
Séc. 18, 2ª metade - escavações patrocinadas por D. Maria I; 1850 - a Sociedade Arqueológica Lusitana procede a explorações em casas de habitação; 1924 / 1933 - escavações dirigidas por Marques da Costa; 1948 / 1955 - Dr. Leite de Vasconcelos; 1963 - início dos trabalhos arqueológicos dirigidos pelo Prof. Manuel Heleno e Dr. D. Fernando de Almeida; 1976 - assentamento de uma estrutura metálica para defender os frescos da capela paleo-cristã.
As Ruínas de Tróia por António Cavaleiro Paixão
CONJUNTO FABRIL DE CONSERVA DE PEIXE
A estação arqueológica de Tróia constitui um dos mais interessantes conjuntos fabris de conserva de peixe do Império Romano. Construído nos inícios do séc. I d.C., manteve-se em plena actividade até, praticamente, ao séc. IV d.C., momento a partir do qual entra num período de irreversível decadência. Estendendo-se outrora por uma faixa de quase 2 Km, este complexo conserveiro mantém ainda uma apreciável densidade de construções, testemunho da intensa actividade industrial e comercial que nele se desenrolava. A origem do nome "Tróia" ainda hoje permanece um mistério. A primeira referência a este topónimo, de que há notícia, data do séc. XVI, e poderá dever-se, tão-somente, à circunstância dos espíritos cultos da época se sentirem tentados a assemelhar estas ruínas à Tróia homérica, aliás, de latitude, cronologia e natureza bem diversas.
INDÚSTRIA E COMÉRCIO
Tróia não foi um ponto isolado no Ocidente europeu. Na verdade, este centro conserveiro fazia parte de uma complexa cadeia comercial que, centrada no Mar Mediterrâneo, o "Mare Nostrum" dos Romanos, garantiu o fornecimento de produtos do mar a todos os grandes núcleos populacionais do Império, incluindo a própria cidade de Roma. Os tanques de salga, de formato triangular e de diferentes tamanhos, agrupados em núcleos independentes separados por muros de alvenaria, destinavam-se a conter o peixe e os ariscos obtidos no rio ou trazidos do alto mar. Aí eram lavados, separados segundo as espécies, e salgados. As vísceras, devidamente seleccionadas, a que eram adicionadas ervas aromáticas de diferente natureza, sofriam um tratamento de maceração e fermentação, delas se obtendo o "garum", espécie de pasta ou molho que servia para condimentar os alimentos. Acondicionado em ânforas ou em vasilhas de menores dimensões, era exportado para diversas partes do mundo romano, onde era altamente apreciado, chegando, por vezes, a atingir preços exorbitantes.
OUTROS ASPECTOS DO COMPLEXO ARQUEOLÓGICO
Para além dos tanques de salga, revestidos de "opus signinum", de que foram, até hoje, descobertos para cima de cinquenta, é de assinalar a existência de uma área habitacional, de um balneário, de três zonas de enterramento, e de um núcleo religioso. A concorrência destes testemunhos de diferente natureza, numa zona praticamente isolada, cuja via de acesso principal seria a marítima ou fluvial, é, já por si suficientemente elucidativa da importância que este centro adquiriu na Antiguidade. Embora dependendo do exterior para a obtenção de vasilhame, de produtos agrícolas e pecuários, criou as estruturas suficientes para assegurar a presença no local de uma população activa responsável pela manutenção desta indústria durante um período de, pelo menos, quatro séculos.
Basílica Paleocristã
Dos edifícios religiosos destaca-se a basílica paleocristã. De quatro naves, com forma irregular “… nas partes conservadas das suas paredes vemos pinturas a fresco que imitam mármores na mancha dos lambris. Nas partes superiores, umas mostram-nos temas geométricos , polígonos ou círculos com aves e outras imitações ilusionistas de remates de travejamento. No apoio da cobertura havia, pelo menos, algumas arcadas transversais, de que vemos alguns arranques decorados com florões saindo de taças e um cantharus que já arremeda os jarros litúrgicos do século VII. Desde o crismon, que Marques da Costa nos deu a conhecer e entretanto destruído, aos florões e aos temas geométricos, vemos toda uma gama decorativa de inspiração paleocristã que não nos parece anterior ao século VI. Algumas sepulturas do tipo mensa, muito evoluídas, cobertas por uma placa de mármore bordejada de molduras de opus signinum, sem qualquer espólio no interior, não desdizem desta datação, bem como o facto de estarmos diante de um espaço funerário implantado dentro dos limites da cidade romana. Mais tarde esta basílica recebeu uma espécie de abside quadrangular alteada, adaptando-se ao serviço religioso de então.” (Carlos Alberto Ferreira de Almeida).
“O carácter religioso do local parece ser anterior à construção da basílica. Aí foi exumado um políptico esculpido que tem sido interpretado como uma representação relacionado com o culto mitraico em que se vê os deuses sol e Mitra (…) e fragmento de um sarcófago de mármore branco…” (Carlos Tavares da Silva). O culto mitraico com origem na Pérsia, chegou ao Ocidente no decorrer do século II d.C., através das legiões romanas, implantando-se entre os grupo económicos mais abastados.
Necrópole As práticas de enterramento em Tróia permitem acompanhar um período temporal que vai do século I d.C. ao século VI d.C. e analisar a evolução dessas práticas e atitudes mentais perante a morte.
Um primeiro momento leva-nos à prática de incineração (queima dos corpos), comum a todos os povo indo-europeus e na qual se incluem os romanos e as populações indígenas da Península.
Esta prática está representada pela sepultura de Galla (datada so século I d.C.), um monumento epigráfico que se encontra no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal. Nestas sepultura as cinzas estavam acompanhadas por uma taça de bronze, um púcaro de cerâmica, dois ungentários em vidro, duas lucernas do século I d.C. e instrumentos de toilete e de lavores em osso. A partir do século II d.C. começou a impor-se lentamente a prática da inumação (deposição do corpo) como consequência da crescente influência das religiões oriundas da Pérsia do Mediterrâneo Oriental, como o culto Mitraico e o Cristianismo.
Está neste caso o fragmento do sarcófago, descoberto sob a basílica paleocristã, onde está esculpida uma cena de transporte do morto em carro de bois para um espaço delimitado por uma rede e defendido por um animal feroz.
Datado de finais do século II d.C. ou do século III d.C., o sarcófago, pela sua qualidade artística reflecte a adesão dos grupos sociais mais abastados à nova religião.
Próprio de um período com domínio da prática da inumação é o mausoléu. Construído numa época em que o complexo industrial já estaria em regressão e portanto com fábricas abandonadas (talvez finais do século IV d.C.), o mausoléu, de planta rectangular e paredes reforçadas por contrafortes, tem o pavimento completamente preenchido por sepulturas de inumação e nichos nas paredes onde poderiam ter sido depositadas urnas.
Nas traseiras e na frente do mausoléu, encontram-se igualmente espaços funerários. Não possuem cronologias seguras para estas zonas funerárias. É possível que tivessem sido utilizados numa época em que o complexo industrial já estava em acentuado estado de abandono. No espaço das traseiras foram utilizadas como urnas, ânforas produzidas no final do império e no espaço da frente do mausoléu utilizaram-se os próprios tanques para os enterramentos.
Este momento ocorreu, possivelmente, no século VI, quando o complexo industrial já não funcionava, sendo Tróia habitada por pescadores que aproveitavam aquele espaço para enterrar os seus mortos.
O carácter religioso do local manteve-se até aos nosso dias através da capela de Nossa Senhora de Tróia.
http://www.troiaresort.com/
Agradeço as fotos do video ao amigo Ricardo Soares
Localização Portugal, Viseu, Carregal do Sal, Oliveira do Conde
Acesso EN 234 em Fiais da Telha, a 1Km por caminho rural; depois de contornar o Estádio das Gandaras à esquerda; na primeira bifurcação à esquerda e depois em cruzamento, de novo à esquerda
Enquadramento Rural, isolado, em clareira plana, de interesse paisagístico rodeada de mata de pinheiro bravo; destacado, harmonizado.
Descrição Câmara poligonal com nove esteios estando dois deles partidos; chapéu de cobertura; corredor longo, com oito esteios de um lado e sete do outro, tendo junto à câmara dois esteios de cobertura; vestígios da mamoa até, sensivelmente, à altura dos esteios do corredor
Utilização Inicial Funerária: dólmen
Utilização Actual Marco histórico-cultural: dólmen
Propriedade Pública: municipal
Cronologia Período megalítico - construção da orca, existindo uma nas proximidades, em Azenha; 2006 - tratamento dos acesso e colocação de placas identificadoras.
Tipologia Arquitectura funerária, megalítica. Dólmen de câmara poligonal e corredor desenvolvido alteando à medida que nos vamos aproximando da câmara, com oito esteios e chapéu.
Intervenção Realizada 1986 / 1988 - escavação Arqueológica; 1994 / 1995 - escavação arqueológica, encontrando-se, como espólio, entre outras, pontas de setas em sílex e quartzo, bem como recipientes em olaria; séc., finais - escoramento do corredor.
Observações Na freguesia, surgem mais monumentos deste tipo, como a Lapa de Santo Tisco, Penedo das Cruzes, Orca I do Ameal, Orca II do Ameal, Orca da Palheira ou Orca I de Oliveira do Conde, Orca II de Oliveira do Conde, Orca do Outeiro do Rato, Orca do Santo.